Escritos do ateliê · 4 jul. 2026

Introdução: Retórica, linguagem e representação

por Lara Baruzzo · 6 min de leitura
Introdução: Retórica, linguagem e representação

contribuições de João Adolfo Hansen para a compreensão da literatura espanhola do Século de Ouro

As escolhas de imagens ou palavras, selecionadas com o intuito de comover, ensinar e deleitar, não são feitas sem consciência. Muito menos, se pensarmos em determinados períodos históricos, podem ser consideradas frutos puramente do desejo individual do artista ou do gênio criador. Muitas vezes, essas escolhas estão incrustadas de complexos artifícios de linguagem. É justamente para despertar o interesse por essa perspectiva que este pequeno resumo expandido propõe entrar nesta “casa de escadas movediças” do Barroco e de suas insinuações formais.

O desenvolvimento das tradições estéticas românticas baseou-se em uma nova forma de compreender o mundo por meio das categorias de estilo e da visão do gênio individual. Porém, para entendermos as produções culturais do Século de Ouro espanhol, precisamos ter maior contato com os processos retóricos de produção das imagens e com as categorias aristotélicas, pois estas, juntamente com a Poética e a Retórica, sustentavam o corpus de formação da linguagem e do engenho artístico.

Segundo Roberto Wu, no prefácio de A arte retórica e outras artes:

“Quando, no início do século XIX, Schelling, Schlegel e, um pouco mais tarde, Hegel, passaram a estruturar e a apresentar publicamente as suas lições e sistematizações estéticas, uma transformação significativa nos modos como se compreendiam o juízo e a fabricação artística estava em curso incontornável. Durante séculos, desde a Antiguidade, a Retórica e a Poética sustentavam o corpus de preceptivas destinadas a orientar o engenho artístico. A recepção da arte também estava, por assim dizer, compreendida no longevo percurso poético-retórico.” (WU, 2024, p. 1).

Barroco na Espanha; José de RIBERA
Barroco na Espanha; José de RIBERA

José de RIBERA (1591-1652) O Martírio de São Bartolomeu, 1634. Óleo sobre tela, 104×113. National Gallery of Art,Washington, EUA.

O autor comenta que, no século XIX, as bases da compreensão estética da arte e da vida passaram a ser orientadas por outro paradigma, fazendo com que se perdesse, gradativamente, a percepção retórica e poética.

“Assim, em muitas histórias da arte, da poesia à pintura, da escultura à arquitetura, os modos de pensar e também os conceitos da modernidade pós-idealista, positiva e romântica caracterizaram de tal modo as histórias que se escreveram sobre a arte que uma das consequências mais significativas desse processo foi a elisão, a transformação ou mesmo o apagamento de muitas matérias poético-retóricas que haviam sustentado, durante séculos, tanto a fabricação artística quanto a sua recepção e compreensão.” (WU, 2024, p. 2).

Roberto Wu também destaca a contribuição de diversos pesquisadores para a recuperação desses instrumentos da Retórica. Entre eles, encontra-se João Adolfo Hansen:

“Mais recentemente, com a virada e recuperação da Retórica, de Perelman e Olbrechts-Tyteca, bem como a contribuição inestimável de pensadores e historiadores da arte e da poesia como Giulio Carlo Argan, Pierre Callebat, João Adolfo Hansen, Leon Kossovitch e muitos outros, a Retórica e a Poética voltaram a ter a voz que mereciam e deveriam ter em nossos discursos e investigações históricos, em nossas análises críticas, não como uma opção metodológica elegível, mas como uma necessidade documental irrefutável, um caminho histórico incontornável, uma vez que sustentaram a compreensão da fábrica artística em séculos de história.” (WU, 2024, p. 2).

Introdução: Retórica, linguagem e representação

Rafael Sanzio, A academia.

Essas retomadas de conceitos e instrumentos da linguagem na análise da literatura e das artes suscitam também um questionamento sobre os próprios conceitos de estilo e de arte, conduzindo-nos a novas fronteiras para pensar o Barroco. Hansen critica as interpretações fundamentadas exclusivamente na noção moderna de estilo ao reintroduzir as categorias retóricas como instrumentos históricos de análise. Este estudo busca demonstrar essa perspectiva para compreender melhor as linguagens presentes nas obras do Século de Ouro espanhol e como esse senso de retórica também extrapolava outras formas de representação, como a pintura.

Diante desse contexto, impõe-se a necessidade de investigação de uma arte — a Retórica — que suscita, por sua vez, uma reflexão sobre o que significa a arte em geral.Durante muito tempo, literatura e artes visuais passaram a ser estudadas como campos independentes. Entretanto, diversos pesquisadores têm mostrado que, entre os séculos XVI e XVII, ambas eram organizadas segundo uma mesma tradição retórica.

“Se, por um lado, o presente livro ressalta o esmero dos estudos clássicos, imprescindíveis para o entendimento dos fundamentos retóricos, por outro, assinala as metamorfoses de seus sentidos e a reconfiguração das fronteiras entre os saberes a partir desses pressupostos.” (WU, 2024, p. 10).

Pois a escolha das palavras ou das imagens, selecionadas com o intuito de comover ou produzir determinados efeitos, decorre do fato de que, segundo a tradição retórica dos séculos XVI e XVII, literatura, pintura, escultura e arquitetura compartilhavam princípios comuns de invenção e organização do discurso.

Esse é justamente um dos pontos centrais dos estudos de João Adolfo Hansen, que pretendo apresentar neste resumo expandido.

A pergunta é: como compreender o Barroco não como um “estilo artístico”, mas como um conjunto de práticas discursivas fundamentadas na Retórica clássica, de modo a compreender melhor a produção literária do Século de Ouro espanhol e, consequentemente, sua relação com a pintura?

Ou, de forma mais específica:

Como a recuperação das categorias da Retórica clássica, proposta por João Adolfo Hansen, contribui para compreender a literatura espanhola do Século de Ouro e sua relação com a pintura barroca?

Introdução: Retórica, linguagem e representação

Frontispício da Grammatica, de Nebrija .

O objetivo geral é analisar como João Adolfo Hansen recupera as categorias da tradição retórico-poética clássica para interpretar a literatura espanhola do Século de Ouro e discutir sua contribuição para a compreensão das relações entre linguagem e imagem.

Objetivos específicos: apresentar os principais conceitos da retórica clássica utilizados por Hansen; compreender a categoria da agudeza na tradição espanhola; demonstrar como essas categorias aristotélicas estruturam a produção literária do Século de Ouro; discutir como tais categorias podem contribuir para compreender a imagem como discurso, utilizando a pintura Guerra e Paz, de Rubens, e o conceito poético implícito na obra.

na postagem de Desenvolvimento Parte I

Na primeira parte do resumo, realizarei uma análise da tradição retórica na literatura espanhola com base no texto Retórica da agudeza, de João Adolfo Hansen, no qual serão considerados os conceitos de Aristóteles, Quintiliano, engenho, agudeza, conceito, metáfora, prudência e decoro, aplicados em autores como Baltasar Gracián, Luis de Góngora e Francisco de Quevedo. O objetivo dessa parte é demonstrar que a literatura espanhola era construída segundo princípios retóricos.

Na segunda parte do desenvolvimento ( Parte II) , buscarei também, a partir do texto Instituição retórica, técnica retórica, discurso, de Hansen, delimitar a linguagem como fundamento das diferentes artes e, com isso, demonstrar que conceitos como inventio, dispositio, elocutio, memória, decoro e verossimilhança eram categorias que não pertenciam apenas à literatura, mas organizavam qualquer forma de produção discursiva, à qual até mesmo Gombrich faz referência ao discutir a construção do estilo.

Na conclusão.

Por fim, chegaremos à conclusão deste pequeno resumo expandido sobre o tema, demonstrando que Hansen oferece uma nova maneira de compreender a literatura espanhola, mais especificamente os autores do chamado Século de Ouro. Essa perspectiva recupera categorias esquecidas pela estética moderna e evidencia que tais categorias permitem pensar novas relações entre palavra e imagem.

Referências bibliográficas HANSEN, João Adolfo. Retórica da agudeza. Letras Clássicas, São Paulo, n. 4, p. 317-342, 2000. Disponível em: https://revistas.usp.br/letrasclassicas/article/view/73792. Acesso em: 4 jul. 2026.

HANSEN, João Adolfo. Instituição retórica, técnica retórica, discurso. Matraga, Rio de Janeiro, v. 20, n. 33, p. 11-46, jul./dez. 2013. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/matraga/article/view/19759. Acesso em: 4 jul. 2026.

GOMBRICH, Ernst H. Arte e ilusão: um estudo da psicologia da representação pictórica. Tradução de Raul de Sá Barbosa. 4. ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2007.

WU, Roberto; BASTOS, Rodrigo (org.). A arte retórica e outras artes. São Paulo: Annablume, 2024.

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