Le Miroirs de Maurice Ravel e Monet

Uma experiencia entre escuta e apreciação de imagens
Miroirs é composta por cinco peças para piano e foi escrita entre os anos 1904 a 1905 e inclui: Nocturelles (meses das noites), Oiseaux tristes ( tristes pássaros), Une barque sur l´océan ( um barco no oceano , Alborada del gracioso ( alvorada do gracioso) and La valleé des cloches ( o vale dos sinos ) .
A terceira e a quarta peça da obra, uma barca no oceano (de 1906, revisada em 1926) e a alvorada do gracioso (1918) , foram tardiamente também orquestradas pelo compositor. A obra foi primeiramente executada pelo pianista espanhol, Ricardo Viñes , amigos íntimos de Ravel , no dia 6 de janeiro de 1906, na sociedade nacional da música , Salle Érard, em Paris.

A maioria das peças para piano que Ravel escreveu para Mirroirs foram baseadas na obra de Pavane pour une infate défunte, Jeux d´eua , e uma sonatina para piano em 3 movimentos.
Ravel : Pavane pour une infante défunt
Ravel: Jeux d'eau
O período no qual Ravel escreveu Miroirs foi durante um de seus mais prolíferos e o qual ele produziu a maior parte de suas composições. Ela adveio após sua experiência a série de 4 fracassos na tentativa de ganhar o Prêmio de Roma, uma competição do conservatório de paris, um dos mais importantes prêmios do período, após não ser aceito mesmo já tendo certo reconhecimento e fama por seu trabalho, tal situação foi referida e conhecida como o Escândalo de Ravel. Muito bem desenvolvida no filme realizado sobre o autor recentemente. Quando saia para brindar o fracasso e rir com seus amigos.
Pós várias fracassadas tentativas, Ravel foi convidado para um cruzeiro pela Holanda com seus amigos, Alfred Edwars e sua esposa. Essa viagem deixou longas impressões em Ravel e deve ter aberto muitas impressões que proporcionaram sua criação. No período de 3 anos seguidos de seu retorno da viagem e escreveu, a sonatina, Mirois, las Cloches Engloutie. Histoires Naturelles, Rhapsody Espagnole, Gaspard de la Nuit, L’Heure Espagnole e Ma Mère l’Oye.
Em 1900 Ravel entrou em um grupo de músicos franceses, escritores e artistas, que também eram chamados de les Apaches, um termo posto por Ricardo Viñes .
Cada movimento dos Espelhos foi dedicado a um diferente membro do grupo. A primeira das peças, Noctuelles foi dedicada ao poeta francês Leon-Paul Fargue. Oiseaux tristes foi dedicada ao pianista Ricardo Viñes, une barque sur l´Ocean foi dedicata a Paul Sordes, um pintor francês,

The Wave, Pierre-Auguste Renoir alborada del gracioso foi dedicada a Michel D. Calvocoressi, um crítico de música que era a favor as obras de Ravel , e Le Vallée des Cloches composto a Marice Delage.

Paul Sordes 1877–d. ca. 1937 Moment de détente sur la terrasse ombragée Medium watercolor Size 25 x 36 cm. (9.8 x 14.2 in.)Oiseaux Triste ( escute enquanto lê os textos e vê as imagens )
A ordem das peças não foi estabelecida de acordo com a ordem que foram escritas. Em fato, a cronologia dos Oiseaux tristes foi a primeira peça que Ravel compôs. Isso parece que o compositor foi inspirado pela história que seu amigo Ricardo Viñes disse a ele durante o retorno de um encontro que ele teve com Debussy e este o disse que havia a vontade de escrever a peça em um formato que também fosse livre e soa-se como a improvisação, ou como algo que fosse tirado de um rascunho.
A reflexão no titulo Miroirs e os similares títulos das peças escritos naquela época, sugere reflexões sobre as coisa e objetos. Neste caso as reflexões que podemos ver são aquelas dos meses das noites, pássaros, um barco no oceano, e uma música espanhola que imitaria em seu violão os sonidos dos sinos em um vale.

Charing Cross Bridge, the ThamesCLAUDE MONET [PARIS, 1840 - GIVERNY, 1926] 1903
Os dedos do artista tropeçam nas notas, fazendo-se querer perdidos e soltos, como o desenho gestual caminhando livre em falsos erros para dar fluidez e ritmo na imagem, É como se o reflexo das luzes na agua pudessem falar, esse barco que rasga o oceano de um uma alma inquieta e silenciosa na solidão de uma noite bela e tranquila.

Monet, nascer do sol.O retrato de Ravel nessas reflexões é bem descritivo e se mostra no senso de imaginação do ouvinte. Essas peças criadas em uma intensa atmosfera de estado que as evocam as exatas imagens que seus títulos sugerem. Pode-se sentir isso junto a uma particular cena como talvez observando uma pintura que traga certa imagem composicional de seus títulos não necessariamente a mesma.
O esforço desta divagação é de algum modo encontrar imagens em pinturas impressionistas que pudessem dar a mesma sensação dos escritos de Ravel. Como se as duas pudessem penetrar como tramas de um tecido que se costura junto.
Na história da música detectamos diversos momentos em que há um definido contato entre a arte dos sons e as artes plásticas. Referência a este respeito é o livro em dois volumes “Miroirs de la musique” (Espelhos da música) do musicólogo francês François Sabatier, lançado na França pela editora Fayard. Infelizmente este trabalho de pesquisa nunca foi traduzido para nenhum outro idioma, nem mesmo para o inglês. O assunto é apaixonante, pois há um enriquecimento enorme nestes contatos entre dois tipos diferentes de pensamentos artísticos.

Claude Monet, Haystack, 1891Porém em seu comentário pessoal sobre a obra , o autor coloca estar a analogia da obra a pintura condicionada em certos aspectos a uma visão empirista do que subjetivista. Neste ponto a obra se distancia da produção pictórica impressionista que quisesse expor um sentimento interior do pintor sob o objeto pintado ao em vez de uma pintura que resulta das impressões de observação do pintor .
“ O título Miroirs ( reflexos) são cinco peças de piano compostas em 1905, autorizo meus críticos a considerar essa coleção sobre trabalhos pertencentes ao movimento impressionista, não estando contradizendo se o pensarem como um termo em analogia. Mas ao e vez de umas fugas analogia, em relação a isso, desde o início do impressionismo isso não tem necessariamente nenhum sentido preciso em relação ao domínio da pintura impressionista. Em qualquer modo, a palavra espelho não precisa assumir que eu quero afirmar teorias subjetivistas sobre a arte. Uma sentença escrita por Shakespeare me ajudou a formular a completa oposta posição: ‘the eye sees not itself / but by reflection, by some other things’ (Julius Caesar, act I, Scene 2).”

Monet - Camille Monet and a Child in the Artist’s Garden in Argenteuil, 1875Isso nos ajuda a entender o que o compositor intuía no papel de nos ajudar a ver essas imagens através de seu pensamento pessoal de uma objetiva pintura de imagens dentro dos espelhos, uma pictórica descrição ao em vez que uma subjetiva expressão dos sentimentos.
Podemos fazer uma analogia a diferença das percepções das pinturas de Claude Monet antes e depois de sua catarata precisamente as suas pinturas feitas em sua casa em Giverny.

Morning on the Seine near Giverny, Claude Monet French ,1897.
Monet estava em uma batalha interior, a catarata foi absorvendo sua capacidade de ver, em meio a guerra, o artista batalhou contra si mesmo e rende-se a entrega da doença como forma de libertação em um trabalho revolucionário. As ondas de Miroirs No. 3, “Une Barque sur l’Ocean’’ , por mais rebeldes e crespas em suas espumas que fossem nao impediram o barqueiro chegar em seu destino. Foi Adentrando profundamente em seu interior que Monet encontrou sua liberdade pela beleza nos jardins de Giverny.

Le bassin aux nymphéas, harmonie verte (1899) Vídeo: Oiseaux Triste

The Boot at Giverny, 1877 - by Claude Monet
O barco em Giverny, possui uma energia de aventura de crianças, seus agudos e contrastes sao brincadeiras de quem atravessa aguas profundas com leveza, com curiosidade daquele primeiro enquanto feito na imaginação, a noite é trocada pelo escuro das aguas, elas se reconhecem em seus reflexos, esse espelho do profundo e do céu numa travessia pelo jardim, as pinceladas salpicam como os peixes pulando fora da agua, um movimento que contorna todo quadro, como os acordes que se repetem em cadencias quase como escalas , porém na pintura estas se fazem escalas de cores e sensações de azuis esmeraldas e roxeados. Uma criança segura uma vara como fosse descobridora e pescadora lúdica de seus sonhos.
Porém a partir de certa parte da musica podemos sentir com os graves o confronto do que é doença e o que é beleza diante do que não se pode fugir.
A vida humana é como uma flecha que vai até um ápice e depois cai de forma curvilínea ao vale da morte. Todo artista que se propõem a um legado também caminha com sua vocação atrelada a sua própria vida. Um mistura aonde o eu e o fazer se tornam as mãos e o pincel.

Claude Monet - Leicester Square, la nuit.
A barque sur l’ocen possui uma espécie de confronto das emoções a este oceano que pode ser uma grande onda que engula ou confronte um barco.
Em 1912 quando Monet tinha 72 anos, recebeu o diagnóstico de catarata mas os sintomas começaram 10 anos antes. Por receio do pintor, a cirurgia só foi feita em 1923. Monet operou o olho direito, mas insatisfeito com o resultado inicial não quis operar o olho esquerdo. O olho esquerdo, apresentava uma densa catarata e não podia ver corretamente os tons de amarelo, violeta e azul. O olho direito, no entanto, podia ver claramente essas cores.As pinturas de Monet refletem claramente as alterações que a catarata causaram na sua visão. A percepção das cores mudou muito. Seus brancos, verdes e azuis começaram a mudar de tons sendo substituídos pelo amarelo e pelo roxo em suas pinturas. Usava uma paleta de laranja-vermelho para paisagens ao invés de um verde-azul. A luz o incomodava e ele só pintava em certas horas do dia, quando a luz lhe permitia trabalhar melhor. Quando ele finalmente conseguiu fazer a cirurgia e obter novamente sua visão, destruiu muitos dos seus trabalhos que ele fez com a catarata. Suas últimas pinturas antes de sua morte (que ocorreu três anos depois) lembravam seus trabalhos iniciais.

À esquerda: pintura de Monet da ponte japonesa em seu jardim em Giverny (1899); A mesma cena (meio) que ele tentou capturar novamente entre 1918-1922 mostra que as cataratas turvaram sua visão e que o amarelamento das lentes de seus olhos prejudicaram sua visão do azul e do verde, deixando-o num mundo mais “vermelho e marron”. À direita: Imagem computadorizada criada por especialistas mostrando como Monet enxergaria em 1924.
Esses tons as vezes desarmônicos, esses graves que vem e voltam, Claude Monet
Nymphéas, esvoaçando entre reflexos da agua que movem as próprias vegetações, traços de ritmos barrocos que vem e voltam nos verdes escuros nos roxos e aprofundo um sentimento de descanso com suas perturbações e conflitos no escuro das aguas, da alma de Monet que se rende a beleza. Aceita a doença e se redime a natureza que o cerca, e aceitando-a se redime e vence-a.

Claude Monet, Nymphéas
O título Gaspard de la Nuit é carregado de simbolismo — e isso é o que o torna tão forte artisticamente. “Gaspard”: vem de uma tradição persa e bíblica, associado a um dos reis magos. O nome pode significar algo como “guardião de tesouros”. de la Nuit” (da noite): remete ao mistério, ao inconsciente, ao mundo oculto, aos sonhos e ao lado sombrio da experiência humana.
Ravel: Gaspard de la Nuit
“o guardião dos tesouros da noite”

Claude Monet, Westminster Palace, Sunset, 1900bem a melhor pintura de Monet que poderia falar desse protetor da noite que nos vigia enquanto os amantes se encontram nas margens do rio, ao mesmo tempo que fogem de uma paixão proibida, coberta por beijos , seria a pintura nas margens de Westminster, os toques do sal dos azuis combatem as flamas do sol que invadem as margens do rio como um chamado simbólico de um cobertor de cores e sensações que invadem almas calmas e nervosas como as nuvens no céu.
Os pores do sol de Monet possuem esse aspecto do guardião da noite, sao dias que se esvaem mas que acolhem uma noite de descanso
Sunset at Giverny Claude Monet, 1886A alegoria do “guardião da noite” na poesia simbolista não é uma figura fixa — ela funciona como um núcleo de sentidos que reúne vigilância, limiar, mistério e consciência. Para entender profundamente, é preciso entrar no espírito do Simbolismo, onde a realidade visível é apenas um véu de algo mais essencial e invisível. Noite seria o prenúncio do espaço onde coisas emergem, onde os sonhos ocultos se brotam, onde podemos descansar em paz. O guardião seria o que atravessaria conosco esse portal, quem estaria entre as trevas e a luz, entre um por do sol que queima toda atmosfera para relaxar. Como alguém que nos guia por vales soturnos que temos medos de enfrentar mas precisamos chegar, como o esvair de mais um dia. Mais um sopro arroxeado de expectativas.
já o Miroirs No. 4, “Alborada del Gracioso” O nascer do dia, O início, A passagem da escuridão para a luz, em Ravel possui a energia de uma tourada.
Video: Alvorada do Gracioso

Claude Monet's Nascer do sol, o mar ,1873,As ondas dessa chegada do nascer do sol possuem algo de crispado como a pintura portuária, o nascer do sol , o mar. de Monet .
O gracioso vem do teatro espanhol clássico — especialmente do universo de Pedro Calderón de la Barca: o personagem possui a imagem do bobo, o irônico, o que fala verdades disfarçadas, mistura humor, melancolia e lucidez, vive à margem do heroico — mas enxerga mais fundo. A velocidade das notas se convertem nessa contradição de uma entrada do dia e o esconder da noite em ondas e barcos escuros que navegam pelo porto.
Esse titubear das notas pela imaginação, sonhos, delírios, medos, beleza sombria, revela aquilo que só existe no escuro, conduz o olhar para o invisível, abre acesso ao mundo interior e ao fantástico a quem o escuta. Para encerrar outras pinturas que podem prenunciar essa evocação de Ravel,
esta desde os Nymphéas (Nenúfares), Água como espelho do invisível. Assim como Ondina emerge da água, Monet dissolve o mundo na superfície do lago.

Sao Pinturas que realidade e sonho se misturam, não há horizonte claro , você não sabe onde termina o reflexo e começa o céu. A Atmosfera líquida e sensorial A pintura não descreve, ela envolve, quase como uma presença. Silêncio e mistério Existe uma calma inquietante, como se algo estivesse ali, mas não totalmente visível.

No mesmo período que Miroirs foi escrita Debussy está trabalhando em suas imagens para piano, dois volumes de 3 peças de piano. O título destas sugere algumas similaridades ao que Ravel compôs, porem os dois compositores tem diferentes ideias lidando com o retrato de suas musicas, Debussy sendo mais subjetivo e emocional enquanto Ravel sendo mais objetivo por meio do pessoal de observação. A primeira peça das imagens de Debussy , Reflets dans l´eau ( reflexos na agua ) foi inspirada pela agua e similarmente a obra de rave une barque sur l´ocean. A peça de Debussy lida com as luzes refletindo na agua enquanto ravel lida com a jornada de um bote no oceano.
A harmonia de Ravel mencionada numa entrevista com Alexis Roland-Manuel “ a forma da obra Espelhos seria uma coleção de peças para piano que marca, na evolução da harmonia, uma considerável mudança que desconectou músicos que , naquele tempo, se acostumaram por meu estilo “Oct 15 1928.
A harmonia nessas peças é inovadora, comparado com o estreito caminho na tradição harmônica. Na primeira peça , Nouvuelles, nos vemos o extensivo uso do cromatismo vertical e horizontal ,o uso de escalas de tom inteiro e dissonâncias na forma de encontro das appogiaturas atacadas, evitando as tríades tonais ao ponto que chegam perto da bitonalidade. Em outras incorpora o uso do modalismo, como o modo Dorico e Frigio que são característicos da música basca e andaluz.
Nas pinturas de Monet diz-se sair de um ditame clássico de construção, volumétrica e estrutural mas em verdade os riscos e tons que se intercalam possuem o ritmo barroco cavalo em flamas de um movimento que conduz nossos olhos aos espelho e reflexos da alma de nossos sentimentos.

Aqui o mundo já está quase dissolvido. Não é mais paisagem — é sensação. Muito próximo da ideia de “algo que existe, mas não se vê totalmente”.
No vale dos sinos, o elemento onírico participa com imagens: Onírico vem do grego oneiros (sonho) e significa tudo aquilo que tem caráter de sonho.Relativo aos sonhos, que parece um sonho, Algo irreal, fluido, estranho ou simbólico. As regras da realidade parecem suspensas: Há mistura de tempo, memória e imaginação, As imagens são mais sentidas do que explicadas atmosferas nebulosas, indefinidas. Figuras que surgem e desaparecem. Sensação de eco, repetição, silêncio profundo
Esse vale, espaço de vazio aonde sons que parecem vir de um lugar interno.
Ravel - Miroirs No. 5, "La Vallée des Cloches"
The Entrance to Giverny under the Snow, Claude Monet, 1885.
Na obra de Ravel, não é apenas um “vale com sinos” literal. É uma imagem poética e sonora, Diferentes sinos tocando à distância, camadas de tempo e memória passam, é presente e passado, é futuro e o agora, desenvolvendo-se em um espaço quase onírico (de sonho), aquele entrecortar entre o sono e o acordar, uma sensação de suspensão — como se o tempo não fosse linear.
Os sinos podem sugerir: um chamado espiritual? , a passagem do tempo como uma paisagem na entrada de Monet em seu jardim , morte e eternidade como as neves que nos carregam a brancura alva e ao terror do inverno, Memória que ecoa de um espaço que se aproxima ou que é sempre partida.

Série da Catedral de Rouen (1892–94), Monet Existe o elemento de transição do som que surge e desaparece, dos sinos que tocam numa catedral que talvez nunca entres, mas sempre a vê, esses sinos que tocam pela cidade e se perde aonde possam estar estas catedrais, esse som externo que na verdade parece vir de dentro. Essas catedrais e o sol que bate em suas paredes são na verdade as catedrais de nossos próprios afetos de sonhos de criança nunca desfeitos, ali guardados em nosso interior já machucado, mas que Ravel e Monet são capazes de reavivar com candura e um movimento que suspende as rigidez e estruturas do mundo.