Escritos do ateliê · 22 ago. 2026

Interlocução entre pintura e Yoga como formas de presença

por Lara Baruzzo · 7 min de leitura
Interlocução entre pintura e Yoga como formas de presença

Uma conversa com Felipe dos Anjos sobre meditação, yoga, disciplina e os movimentos interiores que sustentam a criação artística

Uma pintura não guarda apenas tinta, matéria e imagem. Ela também preserva o tempo vivido pelo artista: os dias de entusiasmo, as horas de cansaço, as dúvidas, as mudanças interiores e os acontecimentos externos que atravessaram sua realização.

Essa foi uma das ideias centrais da conversa que tive com Felipe dos Anjos sobre as relações entre arte, saúde, yoga e meditação. Partimos da obra monumental “Ressurreição dos Homens Negros”, com quatro metros de extensão, realizada ao longo de aproximadamente nove meses. Felipe observou que cada gesto presente na tela corresponde a um instante específico: houve dias em que pintei com energia, outros em que o corpo estava fragilizado e momentos em que foi necessário continuar mesmo sem vontade.

foto créditos Amarildo Henning kraetzer

A pintura torna-se, assim, uma espécie de movimento congelado — ou, talvez, eternizado. Cada pincelada registra uma condição física, emocional e espiritual. A imagem final não revela apenas aquilo que vemos: ela reúne silenciosamente tudo o que precisou acontecer para que pudesse existir.

Quando o corpo também precisa ressurgirA realização da obra coincidiu com um período delicado da minha vida. Eu trabalhava intensamente, não respeitava adequadamente o sono e atravessei problemas pessoais que afetaram profundamente minha saúde. Nesse contexto, tive Covid e enfrentei sintomas persistentes no período posterior à doença.

Foi justamente quando adoeci que comecei a compreender a saúde não como algo garantido, mas como uma construção diária. Além do acompanhamento médico e do tratamento medicamentoso, encontrei nas aulas de yoga, nas práticas de respiração e na meditação orientadas por Felipe formas complementares de recuperar presença, concentração e confiança no próprio corpo.

A experiência modificou também minha compreensão da obra. Em “Ressurreição dos Homens Negros”, um conjunto de corpos ressurge e, ao mesmo tempo, sustenta o personagem central. Para que alguém possa se levantar, muitas vezes é necessário que outros ofereçam cuidado, presença e território.

A tela tornou-se, portanto, a imagem de uma experiência real: um coletivo que ajuda um indivíduo a se libertar — enquanto também participa do próprio movimento de libertação.

Esse coletivo envolvia o professor que acompanhava minha recuperação, meus pais, meu irmão, minha cunhada e todas as pessoas que, por meio de gestos grandes ou discretos, permitiram que eu continuasse. A obra não foi produzida apenas por minhas mãos. Ela nasceu dentro de uma rede de afeto, trabalho, cuidado e interdependência.

Disciplina também é liberdadeDurante a conversa, chegamos a uma distinção importante entre esforço e força. O esforço pode ser vivido como uma resistência permanente contra aquilo que precisa ser feito. A força, por outro lado, surge quando a ação passa a possuir sentido.

Uma prática inicialmente difícil — respirar com atenção, movimentar o corpo, entrar em contato com o frio ou simplesmente permanecer em silêncio — pode deixar de ser apenas esforço e transformar-se em fonte de energia interior.

Foi nesse ponto que falamos sobre disciplina. A liberdade não consiste somente em fazer tudo o que se deseja. Ela também está na capacidade de dizer não, estabelecer limites e escolher aquilo que verdadeiramente nos fortalece.

Para o artista, essa disciplina não se limita ao cumprimento de horários. Ela significa cuidar do corpo que segura o pincel, da mente que organiza a composição e da vida interior que alimenta as imagens.

Existe uma visão romantizada do artista como alguém que precisa adoecer, sofrer ou viver desordenadamente para criar. Minha experiência me ensinou o contrário. Para pintar obras de grandes dimensões, preciso de força, flexibilidade, resistência física e consciência postural. Preciso cuidar das escápulas, dos ombros, da coluna, do sono e da saúde mental.

Sem o corpo, não existe pintura.

Meditar não é deixar de pensarFelipe também desfez uma ideia comum: meditar não significa interromper completamente os pensamentos. Pensar é uma atividade natural da mente. A prática consiste em aprender a observar um pensamento sem necessariamente se identificar com ele ou construir toda uma realidade a partir dele.

O pensamento chega, é reconhecido e pode partir.

Essa mudança aparentemente simples cria um espaço entre aquilo que sentimos e a maneira como reagimos. A meditação nos convida a perceber os pés tocando o chão, a temperatura do ar, o ritmo da respiração e o sabor único de uma fruta. É um treinamento da qualidade da atenção.

O objetivo não é permanecer o tempo todo em um estado artificial de tranquilidade. Presença também significa reconhecer o cansaço, a tristeza ou o estresse sem transformar essas experiências passageiras em uma identidade permanente.

As pesquisas científicas sugerem que práticas de yoga, meditação e atenção plena podem contribuir para o bem-estar, a redução do estresse, a qualidade do sono e alguns aspectos da saúde emocional. Os resultados, entretanto, variam entre pessoas e estudos, e essas práticas devem ser compreendidas como complementares — nunca como substitutas de cuidados médicos ou psicológicos. O Centro Nacional de Saúde Complementar e Integrativa dos Estados Unidos apresenta uma síntese equilibrada dessas evidências.

Pintar é consagrar a pausaEm determinado momento da conversa, formulei uma ideia que resume profundamente essa relação:

Se tudo é música, a pintura é a consagração da pausa.

Interlocução entre pintura e Yoga como formas de presença

foto créditos Amarildo Henning kraetzer

Nenhuma música existe sem o intervalo entre as notas. Nenhuma sinfonia permanece em movimento contínuo. É a pausa que permite reconhecer o ritmo, distinguir os instrumentos e perceber a beleza do conjunto.

A pintura também interrompe o fluxo do mundo. Diante dela, podemos parar, observar e permanecer. Uma obra pode se tornar um objeto de contemplação, assim como as mandalas, os ícones, os rosários e outras imagens utilizadas em diferentes tradições espirituais.

Quando alguém olha verdadeiramente para uma pintura, não recebe apenas uma informação visual. Entra em contato com uma atmosfera, uma memória e um estado de espírito. Por isso, o artista precisa refletir sobre as imagens que produz e sobre aquilo que deseja colocar em circulação no mundo.

As imagens abrem espaços dentro de nós.

A manualidade como memóriaFalamos ainda sobre o caráter meditativo do trabalho manual. Desenhar, pintar, dourar, modelar a argila ou preencher lentamente a superfície de um papel modifica nossa relação com o tempo.

Ao terminar um objeto, experimentamos uma forma concreta de realização. A vida permanece imprevisível, mas aquela matéria pode ser trabalhada, compreendida e conduzida até uma forma. Esse processo devolve uma sensação de capacidade interior.

Felipe relacionou a manualidade a uma memória ancestral. Quando manipulamos materiais, repetimos gestos realizados por incontáveis pessoas antes de nós. Há algo profundamente humano em construir, reparar, desenhar e transmitir uma técnica.

A arte nos recorda que não começamos sozinhos. Somos formados pelas pessoas que nos ensinaram, por aquelas que cuidaram de nós e por todos os trabalhos que sustentam silenciosamente a nossa existência.

Essa consciência da interdependência também nos ajuda a enfrentar o preconceito. Se compreendêssemos verdadeiramente o quanto dependemos uns dos outros, qualquer forma de desumanização se tornaria insustentável. Rejeitar o outro seria, em última instância, rejeitar uma parte da rede que também nos constitui.

A ressurreição como práticaAo final, compreendemos que yoga, meditação, pintura e desenho compartilham uma mesma exigência: voltar ao presente.

Interlocução entre pintura e Yoga como formas de presença

foto créditos Amarildo Henning kraetzer

Exemplo da série cromáticas: o próprio exercício de escolher a cor, te coloca em perceber no presente sair dos pensamentos do que elas podem simbolizar e sentir de fato a presença da relação dessas cores com o sentimento que o artista queira transmitir.

Todas essas práticas pedem atenção, repetição, disciplina e disponibilidade para recomeçar. Nenhuma delas elimina a dificuldade. Elas nos ensinam a atravessá-la de maneira mais consciente.

A ressurreição, nesse sentido, não é apenas o tema de uma pintura. É uma atitude diante da vida. Ela acontece quando voltamos a respirar, quando colocamos os pés no chão e quando retomamos aquilo que precisa ser realizado.

Talvez seja esse o ponto mais profundo de encontro entre arte e saúde: ambas nos recordam que viver exige movimento, mas também pausa; força, mas também cuidado; individualidade, mas também comunidade.

Pintar pode ser uma forma de meditar. Meditar pode ser uma forma de reorganizar a vida. E toda vez que recuperamos a presença, alguma coisa dentro de nós começa novamente a ressurgir.

para ver a entrevista completa acesse por esse link

Esta reflexão nasceu de uma conversa entre a artista visual Larissa Baruzzo e Felipe dos Anjos, professor e praticante de yoga e meditação, realizada dentro da programação cultural da exposição “Ressurreição dos Homens Negros: Atunwá”. Os relatos de recuperação apresentados no texto são experiências pessoais. Práticas corporais e meditativas devem respeitar as condições individuais e atuar de forma complementar ao acompanhamento de profissionais de saúde. A Organização Mundial da Saúde também recomenda que a reabilitação após a Covid seja individualizada e integrada aos cuidados profissionais. Saiba mais nas orientações da OMS.

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